.Folhetim Colhetivo: As Abotoaduras de Ouro – Capítulo 2

Abril 8, 2010 at 2:38 am 4 comentários

As Abotoaduras de Ouro

As Abotoaduras de Ouro

Leia aqui a continuação da nossa história. Segundo os votos dos leitores, o fim do nosso “burguês” foi traçado. Nâo leu o capítulo 1? Clique aqui. Já leu? Então leia o segundo e último capítulo, que é nosso. Espero que gostem.

O ar estava pesado. Era impossível adivinhar pelas nuvens qual era a hora ou mesmo a estação. Em poucos minutos, qualquer coisa poderia acontecer, menos alguma coisa boa.

Na vida de Jean, o “burguês” seqüestrado pelos piratas, essa breve descrição era cabível pela segunda vez em uma única semana. Ainda atordoado, olhava sem acreditar para a criatura que erguia-se do mar e toava um agudo e estrondoso grito prenunciando o pior. Os piratas, depois de alguns segundos de paralisia decorrente do susto, movimentaram-se tentando juntar os canhões que ficavam no convés para atingir o monstro marinho.  Depois do susto, porém, James só conseguia lembrar-se daquelas malditas, maravilhosas e tentadoras… Abotoaduras de ouro.

Um tiro de canhão contra o monstro! Um tiro de canhão o acordou, sete dias atrás. “Militares… Além de insuportáveis são barulhentos.”. Jean não tinha motivo para odiar os militares. Talvez por serem corretos demais, organizados demais, ricos demais – diferentes de tudo o que ele já havia sido algum dia, mesmo que sua vida até alguns anos antes não fosse tão ruim assim. Seu pai era filho do líder da liga dos alfaiates, respeitado mestre e requisitado por toda a alta burguesia. Mas depois que um “inglês idiota” inventou máquinas de tear, “demoníacas!”, a família havia mergulhado em pobreza. Seu pai era incapaz de aprender a mexer naquele “monstro” e seu irmão mais velho havia perdido a mão numa das maquinas, para depois morrer de infecção. Jean se recusava a trabalhar.

No barco, seus olhos agora estavam mais apurados, a neblina espessa se dissipara um pouco. Os tiros haviam batido mas não perfurado a terrível criatura, que Jean já viu ser algo semelhante a um polvo, algo com tentáculos, mas com cabeça quase reptiliana.  Tentáculos esses que se dirigem em fome, fúria e medo contra o barco, exatamente na posição onde o filho do alfaiate se encontrava. Num impulso, era preciso se esquivar.

Seus irmãos mais novos, alguns ainda em idade para serem amamentados, choravam de fome. A mãe de Jean, cujo leite seco não era mais capaz de alimentar, suplicava para que o filho conseguisse uma forma de alimentá-los. O pai, rezava de joelhos no atelier. Os dedos calejados por tantos anos do hábil manuseio da agulha, agora tateavam com cuidado o velho rosário.

– Pai…

…Panen nostrum quotidianum…

– Pai!

Amen. Diga filho.

– Algum cliente hoje? Os meninos não param de chorar…

– Nada. Se eu ao menos ainda tivesse um filho homem capaz de me ajudar. – Disse o velho alfaiate, olhando para o horizonte, sem deixar de tatear o rosário. Jean não foi capaz de responder. As palavras de seu pai eram como as balas de um canhão. A tensão foi quebrada, porém, com o tocar do sino da velha loja. “Mr. Francis!”, gritou a voz inglesa da rua. Pai e filho foram atender a porta. O alfaiate via um cliente. Jean via as abotoaduras, e nela, a esperança.

Esperança. É difícil não pensar nessa palavra à beira da morte. Partilhavam dela, em verbo e pensamento, Jean e os piratas, agora aliados nas mais desesperadas tentativas de sobreviver. É quase impossível respirar agora com o ar quase venenoso com os resquícios de pólvora – não que respirar seja alguma prioridade. Mas por fim, o monstro parece ceder. Sangrava por vários pontos onde a dura pele foi por fim perfurada por balas de maior potência trazidas da parte interna do navio. Jean mais corria do que lutava, depois de perceber que balas de pistola eram inúteis. Um tiro final atingiu um dos olhos do monstro que aos poucos perdeu o equilíbrio. Mal sabiam os piratas que aquele tiro significava a morte, não a vida.

O inglês, elegantíssimo vestia um jaquetão e calças vermelho escarlate sobre uma camisa esverdeada. Meias longas e sapatos de couro das Américas completavam seu traje refinado que tinham, obviamente, o caríssimo toque final das abotoaduras de ouro branco e amarelo. Durante todo o atendimento, onde ele encomendava alguns lenços bordados e remendos para um jaquetão danificado em batalhas marítimas – Que ele contava com orgulho, pompa e muitos gestos – Jean, ineditamente, se fez presente no trabalho de seu pai. De corpo, não de pensamento. A conversa durou pouco tempo, e a encomenda não era grande coisa. Foi o suficiente para deixar o senhor Francis felicíssimo. O marinheiro inglês, muito apressado, consultava o relógio minuto a minuto. Na despedida pouco elegante, esqueceu de deixar um dos lenços com o alfaiate, que só se apercebeu da confusão quando o homem já dobrava a esquina. Jean se prontificou logo a ir ao encontro do homem e corrigir o erro.

O monstro, ao ser atingido nos olhos, havia acabado de projetar o corpo sobre o navio para mais um golpe. Desacordado, ou mesmo morto, perdeu obviamente o controle sobre o próprio, gigantesco, corpo. Era impossível movimentar o navio a tempo. O monstro choca-se com toda a força contra o navio, destruindo mais da metade da embarcação, fadada ao naufrágio.  O navio, dividido em duas metades, afundava aos poucos. Os motores a vapor colapsaram, restos de pólvora explodiram e gritos de alguns piratas podiam ser ouvidos no mais distante continente. No choque, Jean foi lançado ao ar e logo bateu com as costas em uma parte ainda sólida do navio. SE entendesse de medicina, saberia que tinha quebrado uma ou duas costelas ali. Entendia, sim, um pouco da vida. E sabia que não a teria por muito tempo.

Jean seguiu o inglês das abotoaduras até o cais, procurando o momento mais oportuno.  Mas ele não era o único seguindo o galante marinheiro. Dando a volta em um rústico prédio, o britânico entrou em um beco à sombra de um imenso navio de cores portuguesas. Não queria ser visto. Ao entrar no beco, se equilibrando na ponta dos pés, Jean viu o homem fazer juras apaixonadas à uma linda francesa de suntuoso vestido azul e branco, e cabelos encaracolados que emolduravam seus ombros nus e arredondados. Seu véu branco estava jogado ao chão, encharcado pela chuva da manhã que molhava os paralelepípedos. Indignada, a dama chorava e gritava alto mesmo depois dos desesperados pedidos de silêncio do inglês. Passos na madeira do cais assustaram Jean, que logo foi para o outro lado do navio que dava sombra para o beco, e se escondeu em uma posição de observador privilegiada. Um velho marinheiro, sujo e cheirando a rum, correu na direção do beco, esbravejando em francês e bramindo uma pistola para os céus. A cena estava clara para Jean, que no último minuto não hesitou e pulou nas costas do velho pirata que apontava a pistola para o peito do inglês, amante da sua amante. Inconsequência? Talvez. Mas suas abotoaduras estavam em jogo. Jean ouviu, mesmo com todo o seu esforço, o barulho de um disparo.

A dama foi a acertada. Esse não era o intento do pirata, que mesmo com a honra ferida não se desfaria da sua bela amante. O marinheiro inglês foi rápido e logo tirou a vida do pirata ainda no chão. Jean nunca tinha visto a morte assim de perto, ao menos não tão violenta. Seu irmão mais velho havia partido como num piscar de olhos. Ainda nervoso, e ainda mais preocupado com o tempo, o marinheiro disse:

– Você salvou minha vida garoto! Salvou minha vida! Queria eu poder te retribuir.

– Você pode! – O choque de ter presenciado dois assassinatos foi logo substituído pela excitação da oportunidade.

– Mas… Como? – Disse, olhando para todos os lados e se escorando nas paredes do prédio que formava o beco.

– As abotoaduras! Dê-me as abotoaduras!

O marinheiro relutou. Mas logo seus olhos brilharam e a indecisão se transformou em ação. E algo mais.

– Digo melhor meu filho, digo melhor!  – Disse, retirando o jaquetão. – Pegue, pegue tudo. Minhas roupas, meus sapatos, minhas abotoaduras.  São suas. Sabia que elas são únicas? Estão em minha família há décadas. Dê-me cá esse seu casaco e os chinelos e estarei bem até encontrar outro muda de roupa. O que acha? – A oferta era boa demais para ser verdade. Pensou, porém:“Faço, depois penso”. Seu lema lhe dizia a resposta óbvia.

– Tudo bem! O senhor é um santo!

A troca estava feita. O rico marinheiro em poucos minutos, trajado com um filho de alfaiate, sumia, dizendo: “Não se preocupe com os corpos! Suma daí logo. Sou militar, já resolvo esse problema.”. Sinceramente, o rapaz nem se preocupava tanto assim com os mortos. Tinha as suas preciosas abotoaduras. Todos os seus problemas estavam resolvidos. Seus irmãos não passariam fome, sua mãe ficaria feliz, e para o seu pai, seria um herói.

Saiu do beco lentamente, admirando as belas abotoaduras que embelezavam o seu punho. Distraído, não viu se aproximar uma turba de marinheiros mal-encarados que não se deram ao trabalho de reconhecê-lo. Entraram no beco, e aos gritos de “Capitão! Capitão!” foram à sua captura, imobilizando-o e amordaçando-o sem lhe dar o direito de resposta. Olharam apenas o seu pulso, e ao perceber as abotoaduras do “maldito inglês que havia roubado a mulher do capitão” não hesitaram.  A partir dali, era cativo dos piratas. E seus pais nunca mais teriam a chance de ver o brilho das abotoaduras.

Afundando junto do navio, audição e visão se misturavam e se ausentavam sucessivamente, enquanto Jean se afogava com os escombros e os ferimentos que teimavam em fazer do mar uma sepultura para ele. Junto dos restos do que antes era uma sala de espólios, porém, Jean manteve, até o penúltimo momento, os olhos fixos no jaquetão cor de escarlate. Nas abotoaduras, que soltas, leves e eternas, achavam seu caminho rumo à superfície. Elas continuariam, ele não.

No último momento, fechou os olhos.

Evan

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4 comentários Add your own

  • 1. erich  |  Abril 8, 2010 às 3:19 pm

    Vou ter q ler o outro capítulo para não ficar mais perdido do que cego em tiroteio

    Responder
  • 2. Ryan.  |  Abril 10, 2010 às 11:29 pm

    Man, gostei, mas a parte do assassinato eu não entendí.

    Responder
  • 3. Pulga  |  Abril 11, 2010 às 7:41 pm

    Cara, eu gostei muito. Mas a história termina aí? A esperança de “melhorar” quanto a sua classe social com as abotoaduras que se perderam no mar. E o protagonista morreu e… Ou será que não?

    Aguardo por uma resposta – ou pela continuação :)

    Responder
  • 4. Dr.Yuri  |  Abril 14, 2010 às 1:35 am

    Muito boa a historia!!! gostei mesmo, esperando novos trabalhos

    Responder

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